História do Vale do Ribeira

A região do Vale do Ribeira fica localizada entre os Estados de São Paulo e Paraná; sendo compreendido por uma extensa faixa territorial que abrange desde municípios no entorno da capital paulista até os limítrofes de Curitiba. E pelo litoral, desde as proximidades de Peruíbe, no ponto mais ao norte, até próximo do Paranaguá, no ponto mais ao sul10.

A ocupação do Vale do Ribeira começou pela área litorânea. Na altura do século XVI portugueses e espanhóis disputaram a colonização desta vasta região. Em 1504, por exemplo, a esquadra comandada por Américo Vespúcio deixou nas praias da Ilha Cardoso um bacharel degredado. Depois, em 1508, foi a vez da expedição de Vicente Yanez Pinzon abandonar na mesma ilha mais sete castelhanos. Aventureiros que foram encontrados mais tarde, no ano de 1551, pela expedição de Martin Afonso ao ancorar no lugar tendo em vista a procura de metais preciosos, como ouro e prata.

Os municípios do Vale do Ribeira conhecidos como Cananéia e Iguape são descritos em RTCs produzidos por antropólogos contratados pelo ITESP - apoiados em Laudos Antropológicos vinculados ao Ministério Público Federal - como sendo as localidades de referência inicial da ocupação colonizadora do Vale do Ribeira.

A ocupação das áreas interioranas do Vale do Ribeira ocorreu posteriormente. No decorrer do século XVII, motivada particularmente pela descoberta de ouro em depósito aluvião, pelos aventureiros que adentraram a mata atlântica seguindo o curso dos rios. O movimento provocado por tal descoberta levou à organização do primeiro povoado surgido no alto do Vale do Ribeira, como é o caso de Xiririca (hoje conhecida pelo nome de Eldorado).

10 Cf. Carvalho, Maria Celina P. de - Relatório Técnico-Científico sobre os quilombos remanescentes da

comunidade de quilombo do Galvão, municípios de Eldorado e Iporanga – SP, 2000, p. 13.

A descoberta do ouro em depósito aluvião deu impulso ao primeiro ciclo econômico marcante da região. A mineração aurífera perdurou no Vale do Ribeira do século XVI até o século XIX; mas enquanto atividade econômica principal o movimento derradeiro foi ao final do século XVII. A partir deste período a atividade mineradora entra em declínio nesta região devido à descoberta de atrativos veios auríferos nas encostas e leitos de rios entre as montanhas da próspera Capitania das Minas Gerais. Em substituição à exploração mineral ganhou destaque economicamente, no Vale do Ribeira, uma atividade até então secundária, ou seja, a rizicultura.

A exploração da força do trabalho escravo, representada pela mão de obra indígena e dos africanos e/ou seus descendentes, tiveram importância capital no contexto destes dois ciclos econômicos, conforme descrito por Carvalho e Schmitt11: “já no século XVI, não era incomum a existência concomitante de escravos negros e indígenas nas expedições que partiam para o interior de São Paulo”.

Entretanto, observa-se que pouca atenção foi prestada a este fato pelos estudiosos da sociedade escravista no estado de São Paulo. Isso é o que se insinua nas críticas tecidas por Carril contra a interpretação de alguns historiadores que, segundo ela, defendem a tese de que o trabalho escravo no estado paulista só foi introduzido de forma significativa a partir do empreendimento da monocultura cafeeira12. Através da sua crítica esta autora fez alertar para a carência de estudos historiográficos sistemáticos e aprofundados produzidos sobre o Vale do Ribeira, então enfrentada por ela.

Mas é preciso reconhecer que esta restrição há algum tempo já vem sendo superada, graças, inclusive, aos trabalhos de produção de Laudos Antropológicos vinculados ao Ministério Público Federal13 - voltados para a identificação e mapeamento de comunidades tradicionais remanescentes de quilombos localizadas no Vale do Ribeira, e, da mesma forma, os Relatórios Técnicos-Científicos14, produzidos por antropólogos contratados pelo ITESP e cuja finalidade é produzir documentação relevante ao processo para obtenção do titulo definitivo de propriedade das terras tradicionalmente ocupadas nesta referida localidade do estado de São Paulo. Sem esquecer, em acréscimo, da contribuição dos trabalhos científicos-acadêmicos recém produzidos em universidades como USP, Unicamp, entre outras.

11 Carvalho, Maria C.P. de e Schmitt, Alessandra – Relatório Técnico-Científico sobre a comunidade de quilombo do Nhunguara, localizada nos municípios e Eldorado e Iporanga/SP, 2000, p.22.

12 Apud. Carvalho e Schmitt, Ibidem.

13 A referência principal aqui é ANDRADE, Tânia et alli (eds) – [2ª ed.] Negros do Ribeira: reconhecimento étnico e conquista do território....

Sobre a exploração da mão-de-obra escrava do africano e seus descendentes no contexto da atividade da mineração aluvial no Vale do Ribeira a citação do Laudo Antropológico do MPF é esclarecedora: “(...) o Vale do Ribeira recebeu já no século XVI os primeiros contingentes negros que foram a mão-de-obra de sustentação para o desenvolvimento da atividade mineradora.(...), eles foram levados também às outras localidades situadas Ribeira acima”15 (grifos meus). Fonte: RTC ITESP.



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