Nome: Associação dos Remanescentes de Quilombo de Barra de São Pedro do Bairro de Galvão.

Fundada em: 27 de novembro 1999.

Publicação RTC: D.O. E – Diário Oficial do Estado; Poder Executivo, Seção I, São Paulo, 111 (10), terça-feira, 16 de janeiro de 2001 – 4.

RTC - Relatório Técnico Científico de identificação étnica e territorial dos remanescentes de Quilombo feito pela antropóloga Maria Celina Pereira de Carvalho e equipe técnica da Assessoria de Quilombos do ITESP - Instituto de Terras do Estado de São Paulo.

Memorial Descritivo: Perímetro 29º, 30º de Apiaí e 14º de Eldorado Paulista

                                  Município Eldorado e Iporanga

                                  Gleba: Comunidade Galvão

                                  Área: 2.219,2890 ha. Perímetro: 26.238,98 m

Retificação: D.O. E – Diário Oficial do Estado; Poder Executivo, Seção I, São Paulo, 113 (113), sexta-feira, 18 de julho de 2003 – 3.

 Memorial Descritivo: Perímetro 13º e 27º de Eldorado Paulista

                                     Município Eldorado e Iporanga

                                     Local Gleba: Comunidade Galvão

                                    Área: 2.194,3400 há. Perímetro: 24.465,35 m

Reconhecimento pela FCP – Fundação Cultural Palmares: 12 de fevereiro de 2007.

Título de Domínio em: 23 de abril de 2008.

 

HISTÓRIA DO QUILOBO GALVÃO

A história do bairro Galvão (até cerca de duas décadas atrás chamado de Barra do São Pedro) está intimamente ligada à história do bairro de São Pedro (antigamente chamado de Lavrinha). Ambos formavam um único grupo de parentesco ocupando um mesmo território contínuo.

Galvão e São Pedro, bairros vizinhos, estão localizados na margemesquerda do rio Pilões nos municípios de Eldorado e Iporanga, a aproximadamente 47 e 52 km, respectivamente, do centro do município de Eldorado. Chega-se lá pela SP 165, que liga Eldorado a Iporanga e está localizada na margem direita do rio Ribeira de Iguape. Na altura do quilômetro 41, chega-se até a balsa, de onde o início do Galvão dista 1 quilômetro em estrada de terra. Pela mesma estrada, chega-se tambémao núcleo do São Pedro, que dista aproximadamente 9 quilômetros da balsa. O Galvão situa-se, aproximadamente, entre as coordenadas UTM 756.000 E e 7.282.000 N, 761.000 E e 7.290.000 N.

Não tive oportunidade de realizar pesquisa de campo no bairro de São Pedro, embora tenha feito algumas visitas ao lugar. Contudo, as falas de moradores do Galvão presentes nas entrevistas realizadas por mim, mostram versões da história das origens do bairro muito semelhantes àquelas presentes nas entrevistas realizadas pelos antropólogos do Ministério Público Federal no bairro São Pedro. Referem-se ao mesmo fundador dos grupos de parentesco existentes hoje nos dois bairros, o que demonstra que ambos tiveram a mesma origem.

O referido laudo antropológico revela que o escravo fugitivo Bernardo Furquim, depois de chegar à região, ligou-se a mulheres de diversos lugares e teve 24 filhos com elas. Também montou fábricas de pilar arroz e café, e de fazer pinga nos locais onde estão situados os dois bairros.

Moradores do Galvão por mim entrevistados também falam da fábrica de carvão. Os descendentes de Bernardo contribuíram decisivamente para o adensamento populacional negro na área, estabelecendo fortes laços de parentesco entre as várias comunidades negras do entorno. A respeito da importância dessas alianças no processo de ocupação do Vale do Ribeira por populações negras, nos informa Stucchi:

Pode-se afirmar (...) que as referências mais consistentes remetem a Ivaporunduva e São Pedro as primeiras indicações sobre alianças que povoaram e permitiram a ocupação hoje consolidada dos territórios historicamente significativos para as diversas comunidades negras aqui estudadas. O movimento de consolidação da ocupação negra no Vale assistido no período pós-abolição foi iniciado, ao que tudo indica, a partir das alianças e da fixação de descendentes por toda a região entre moradores, inicialmente, das localidades acima indicadas51.

Vejamos um texto escrito por Jovita Furquim de França, bisneta de Bernardo Furquim, a respeito da fuga de Bernardo e das uniões feitas com mulheres de diversas comunidades negras da área52. Ela conta que esta história lhe foi contada pela avó Rita Machado, filha de Bernardo Furquim e de Rosa Machado (a qual teria fugido junto com Bernardo), e por uma tia avó chamada Martimiana, quando ela tinha cerca de dez anos, e, muitos anos mais tarde, lhe foi confirmada por uma tia muito idosa chamada Maria Tibúrcia, neta de Bernardo. É importante salientar que as narradoras desta história gozaram de vida longa, tendo elas mesmas convivido com Bernardo e os antigos companheiros da fuga do cativeiro. Segundo os moradores, Rita Machado faleceu em 30 de dezembro de 1955 aos 86 anos de idade; Martimiana faleceu em 2 de janeiro de 1956 aos 102 anos de idade; Maria Tiburcia faleceu em 1982aos 118 anos de idade.

Escreve-se a história de Bernardo Furquim porJovita Furquim de França, casada com Jabor Nolasco de França. Nossos pais eram netos e nós somos bisnetos [de Bernardo Furquim]. Bernardo foi para o escravo [para a escravidão] com doze anos de idade. Ficou seis anos no escravo, quando formou uma ferida no ombro por carregar muita pedra. Ele fugiu com 18 anos de idade.

Em 1954, eu vi duas mulheres mais idosas conversando sobre a fuga de Bernardo Furquim e seus companheiros do escravo [da escravidão]. Eram eles Bernardo Furquim, Benedito Machado dos Santos e Antônio Machado dos Santos. Mulheres eram Rosa Machado dos Santos, Perpétua e Coadi. A Coadi era amante dele. Eles viajaram muitos dias pela mata e ao chegar na beira da ribeira, eles não conseguiram atravessar. Eles seguiram a margem esquerda. Ao chegar ao Pedro Cubas, eles encontraram um acampamento que já estava ali. Tomando conhecimento, era também um escravo, mas Bernardo e seus companheiros não quiseram ficar por ali. As mulheres estavam abatidas e os cavalos cansados. O homem disse a eles “se vocês andarem mais dois dias de viagem na mata, vocês encontrarão uma vargem muito bonita, já conheço lá. Dá para vocês fazerem um acampamento e ficarem lá. Tem um rio muito bonito e tem muito peixe conforme o que eu vi lá. Quando vocês cultivarem a terra, venham aqui buscar semente e muda de café”. Assim, eles seguiram com mais coragem. Chegando na vargem, eles acamparam na beira do rio, viram que tinha peixe e resolveram fazer armadilha para caçar peixe porque não tinham mais alimento. Só tinham sal e gordura de carneiro para cozinhar palmito na panela de barro para se alimentar. Com o peixe, deu mais certo. Eles fizeram peneira, jequi53 e cesto de cipó para as mulheres caçarem peixe. Esse rio termina no Ivaporunduva54. Enquanto as mulheres pescavam, eles roçavam e derrubavam a mata. Assim, eles conseguiram descortinar três alqueires de chão. Quando deu queima, eles foram buscar no Pedro Cubas as sementeiras: arroz, feijão, milho, café, cana, rama55, cará de espinho. Ali eles conseguiram se formar de todo o serviço de roça e também começou a nascer seus filhos. Parteira eram elas mesmas servindo uma à outra.

Vejamos também esta fala de Jovita:

Já nesse conhecimento das comunidades, o Bernardo foi caçando mulheres para outros lugares, trazendo, fazendo cantina. Como aqui na Barra do São Pedro, aqui foi a maior vila dele. Aqui ele conseguiu uma máquina de farinha, roda d’água, aqui ele conseguiu um monjolo de pilar arroz, de pilar milho para transportar farinha de milho, uma fábrica de pinga. Cá no centro, nesse córrego que atravessa ali na pontinha, lá em cima era a fábrica de pinga dele. E com essa filharada que ele teve, a cada filho foi dando um pedacinho de terra.

Estes relatos de Jovita nos dão pistas sobre o modo como negros fugidos iniciaram um processo de acamponesamento, desbravando terras incultas e servindo de ponte para a formação de novos grupos, com os quais eram constituídas relações de parentesco que garantiam o apossamento de novas terras, base para a manutenção e reprodução desses grupos.

 

No laudo do Ministério Público Federal, informantes revelam que a ocupação negra em São Pedro antecede a chegada de Bernardo Furquim. Embora não haja documentação precisa sobre essa ocupação,

 

há menções indiretas presentes nos registros de terras que indicam a existência de vizinhos cujos registros não constam no Livro de Terras de Xiririca. As lacunas documentais permitem supor que a relativamente numerosa vizinhança confrontante com os moradores de São Pedro que obtiveram o registro de suas posses pela Lei de Terras de 1850, tratava-se de uma população posicionada à margem da ordem social.Dentre essa população, encontra-se uma fração, cujo registro de terras ocupadas não foi possível pela restrição própria do instrumento que dificultava o acesso às camadas mais pobres da população, ainda que branca. Outra fração, composta por uma população eminentemente negra, que não se faria registrar por força da necessidade de manter-se oculta aos olhos da polícia local56.

Voltando à história de Bernardo antes de sua chegada à região, vemos que ele teria trabalhado no eito dos doze aos dezoito anos de idade, permanecendo nessa condição durante seis anos. Não sabemos de que lugar ele e seus companheiros fugiram. Jovita lembra que os antigos diziam que ele vinha de um lugar chamado Campina (ou Campinas) e comenta que também diziam que o sobrenome não era apenas Furquim, mas Furquim de Campos57. Os relatos de que os cavalos estavam cansados e as mulheres abatidas levam a supor que eles devem ter viajado muitos dias até chegar em Pedro Cubas. Contudo, tanto no registro de terras da igreja quanto nos registros de batismos dos filhos, pesquisados pelos antropólogos do Ministério Público, ele aparece apenas como Bernardo Furquim.

O grupo que teria fugido com Bernardo já possuía ligações de parentesco entre si, considerando que Coadi e Rosa Machado eram mulheres de Bernardo, sendo que a última era irmã de Benedito e de Antônio Machado. Havia uma terceira, Perpétua, que seria mulher dos dois irmãos Machado. Jovita brinca dizendo os dois tinham uma mesma mulher enquanto Bernardo tinha duas. Contudo, ela reivindica o posto de “esposa legítima” para sua bisavó, Rosa Machado; as outras, eram “amantes”.

Fator fundamental para a instalação do grupo na área da barra do rio São Pedro, que deságua no rio Pilões, foram as dádivas ofertadas pelo escravo fugido já instalado em Pedro Cubas (certamente um grupo de escravos fugidos, ou melhor, ex-escravos). A começar pelas preciosas informações sobre a região e sobre o melhor lugar para se instalarem e cultivarem suas roças. Possivelmente, o grupo também recebeu ferramentas para roçar e derrubar a mata. Instrumentos de pesca, de origem indígena, garantiram a sobrevivência até a primeira colheita, a qual foi possível graças às sementes e mudas ofertadas pelo grupo de Pedro Cubas. Vemos nos trabalhos de Stucchi58 e Mirales59 que os moradores de Pedro Cubas referem-se ao fundador do bairro como tendo sido Gregório Marinho, um escravo fugido de uma das maiores fazendas da região, a Caiacanga.

Acolhida, informações importantes, ferramentas, mudas e sementes, e, mais tarde, mulheres, presentes que iniciavam um extenso sistema de trocas de dádivas que se solidificaria entre os grupos já existentes e os que se formariam a partir dos descendentes de Bernardo. Refiro-me aqui, novamente, à noção de dádiva de Marcel Mauss60, e também à noção de troca de mulheres de Lévi-Strauss. Para este autor, as trocas de mulheres entre grupos humanos constitui uma regra geral:

(...) a troca, fenômeno total, é primeiramente uma troca total,compreendendo o alimento, os objetos fabricados e esta categoria de bens mais preciosos, as mulheres.

(...)

A inclusão das mulheres no número das obrigações recíprocas de grupo a grupo e de tribo a tribo é um costume tão geral que não bastaria um volume inteiro para enumerar os exemplos61.

A troca de mulheres deve ser compreendida à luz de uma outra noção que também constituiria uma regra geral, a proibição do incesto. Tal interdição (não apenas para o caso de uniões com mães e irmãs, mas também com primas paralelas ou cruzadas, que algumas sociedades classificam como irmãs), além de constituir o início de toda a organização social, regularia o sistema de trocas que compõe o fato social total, tal como definido por Marcel Mauss:

Desde que as mulheres constituem um valor essencial à vida do grupo, em todo casamento o grupo intervém necessariamente em dupla forma: a do “rival, que, por intermédio do grupo, afirma que possuía um direito de acesso igual ao do cônjuge, direito a respeito do qual as condições nas quais foi realizada a união devem estabelecer que foi respeitado; e a do grupo enquanto grupo, o qual afirma que a relação que torna possível o casamento deve ser social – isto é, definida nos termos do grupo – e não natural, com todas as conseqüências, incompatíveis com a vida coletiva que indicamos. Considerada em seu aspecto puramente formal, a proibição do incesto, portanto, é apenas a afirmação, pelo grupo, que em matéria de relações entre sexos, não se pode fazer o que se quer. O aspecto positivo da interdição consistem em dar iníciuo a um começo de organização.

(...)

Considerada como interdição, a proibição do incesto limita-se a afirmar, em um terreno essencial à sobrevivência do grupo, a preeminência do social sobre o natural, do coletivo sobre o individual, da organização sobre o arbitrário62.

Indagada a respeito do significado de cantina, Jovita falou de um termo sinônimo: casas das paia (ou casas das palhas). Trata-se de casas feitas na margem direita do rio Pilões para mulheres, procedentes dos diversos grupos do entorno, que tinham filhos de Bernardo, o que exemplifica muito bem o modo pelo qual ele contribuiu para o adensamento populacional dos bairros negros da área:

Jovita: [em Pilões] [Bernardo e os companheiros de fuga] conheceram muitas pessoas idosas. Tinha duas mulheres chamadas Ana e Maria Gida. Uma, Maria Gida, outra era Ana Gida, eram duas irmãs, ele [Bernardo] catou para ele. Ele trouxe para cá.

 

Celina: Então ele fez uma casa para cada uma separada?Isso que eram as “casas das paia”, essas mulheres das casas das paias eram mães de filhos dele?

 

Jovita: Exatamente. Conforme o conhecimento que ele ia tendo com as mulheres, ele ia trazendo para cá, para o centro e depois ia comandando. Só que Rosa Machado não abria mão com ele.

 

Celina: Então a principal era a Rosa Machado?

 

Jovita: Ela e a Coadi. Essas duas eram campeãs!

 

Em entrevista coletiva com moradores do Galvão, estes informam que as casas das palhas localizavam-se na margem direita do rio Pilões, quase em frente ao centro do bairro, localizado na margem esquerda. Ainda hoje é possível encontrar as ruínas dessas casas, que tinham a base de pedras e o restante em madeira. Observemos que essas mulheres, conforme relatos, eram vistas com uma certa reserva pelos demais e mantidas relativamente isoladas, considerando que a maioria das famílias morava na margem esquerda. É interessante notar que, nas entrevistas colhidas pelos antropólogos do Ministério Público no bairro de São Pedro, algumas vezes Bernardo aparece como tendo fugido sozinho, embora a versão de que ele teve duas ou mais mulheres apareça nas duas comunidades. Todos afirmam que ele teve 24 filhos. Jovita menciona também Maria Dias como tendo sido uma de suas mulheres. Vejamos o que diz o relato de um morador de São Pedro:

Naquelas veredas as mulheres não divergiam muito, então ele arranjava uma mulher num lugar, ele sobrevivia com ela ali um pouco; era muito fácil sustentar três, quatro mulheres. Ele era um cara muito inteligente (Edu Nolasco de França, depoimento em Stucchi, 1998: 51).

Pesquisando os registros de batismo da Paróquia de Nossa Senhora da Guia, em Eldorado, Stucchi encontrou registros de filhos de Bernardo com duas mulheres diferentes, Catharina de Sene e Maria Rodrigues. Nesses documentos, ele aparece como “preto liberto”, e as duas mulheres também figuram como “pretas libertas”:

Em 1856, Bernardo e Catharina batizaram a filha Ana; em 1857, a filha Miquelina. (...) Em 1870, Bernardo e Maria Rodrigues batizaram os filhos João e Marcelino, quando declararam residir em Pilões. Em 1871 batizaram o filho Lindolfo, e em 1873 a filha Carmelina63.

A maioria dos nomes acima mencionados estão presentes na memória de alguns dos moradores mais velhos do Galvão, que mencionam também Maria de Sene, irmã de Catharina. Jovita conta que conheceu Lindolfo (irmão de seu avô Graciano), filho de Bernardo e Maria Rodrigues, que morava no sítio Alegre, no São Pedro. Os pesquisadores do Ministério Público também encontraram o registro de parte das terras de Bernardo no Livro de Terras da Paróquia de Xiririca sob o registro no 469, datado de 1o de junho de 1856:

“Digo eu abaixo assignado que sou senhor e possuidor de um sítio na paragem denominada Boqueirão do São Pedro, distrito desta Villa de Xiririca, de frente do rio a sima faço diviza com meu cunhado João Dias64 em huma pedra grande, de frente do rio abaixo com Ignacio dos Santos em um pao de canela que tem. Por ser verdade mandei passar (?) e pedi ao senhor João Pedro de Pontes que este fizesse e assignasse por eu não saber ler nem escrever”65

Vimos que o laudo do Ministério Público aponta a presença indireta, nos Registros Paroquiais de terras da década de 1850, de uma população negra que precisava manter-se escondida da polícia local e que, portanto, não poderia registrar as posses ocupadas. No entanto, Bernardo permite-se registrar parte de suas posses, sendo apontado como “preto liberto”, o que pode indicar que ele tenha mesmo chegado de longe, conforme os relatos transmitidos oralmente a Jovita por suas antepassadas. Analisando a existência do registro de terras de pretos livres, Stucchi escreve:

Considerando-se que a possibilidade de pretos livres terem acesso e efetivo uso da terra, ainda que em locais mais ermos, devesse contar com a aliança dos mais recentes com os ocupantes precedentes, o fato de alguns de seus moradores, negros libertos, terem acesso ao registro da terra poderia indicar o outro lado de uma aliança unindo múltiplos interesses. Terras oficialmente registradas estariam menos susceptíveis à fiscalização, protegendo uma ocupação caracterizada também por negros em situação de fuga66.

Bernardo sempre aparece nos relatos dos moradores como um incansável empreendedor, tendo montado as diversas fábricas acima mencionadas. Vimos que os bairros rurais negros do Vale estiveram historicamente articulados à economia mais abrangente. Podemos perceber, através de relatos de moradores locais, a inserção econômica das comunidades de São Pedro e Galvão, inclusive no ciclo do arroz, sobre o qual nos fala José Roberto Zan:

Do final do século XVIII até meados do século XIX, a agricultura comercial, especialmente de arroz, apresentou uma expansão significativa, tendo como base a mão-de-obra escrava e voltada para mercados europeus e latinoamericanos. A importância que o “arroz de Iguape” assumiu no contexto econômico da Província pode ser avaliada pelo crescimento da participação relativa da população da Baixada na população provincial (de 3,0% em l772 para 3,9% em l828) ... Além disso, dos ll9 engenhos hidráulicos de beneficiamento de arroz existentes em São Paulo, l00 estavam na região do Ribeira67.

A produção de arroz na região foi consideravelmente reduzida no início do século XX, quando, além da concorrência do produto de outras regiões, ocorreu o assoreamento da barra de Icapara, impedindo a entrada de barcos maiores e impossibilitando o escoamento de mercadorias68. Contudo, diversos relatos locais dão conta de que as trocas de sacas de arroz, café e milho por produtos como tecido, sal e querosene, entre outros, ainda ocorriam até aproximadamente dez anos atrás.

Além de produtos da roça, da aguardente e do carvão que eram trocados com os comerciantes das margens do rio Ribeira de Iguape69, havia uma serraria para cortar madeira tanto para a construção de casas quanto para a comercialização, conforme testemunham este outro texto escrito por Jovita, e também a fala do morador de São Pedro:

Para fazer canavial e mandiocal, fizeram uma fábrica de pinga, uma fábrica de farinha de mandioca, fizeram uma roda que funcionava com água para desenvolver o trabalho deles. Depois, eles fizeram uma fábrica de carvão dirigida por Chico do Morro, casado com a filha de Bernardo Furquim. Transportavam de canoa para vender em Xiririca todos os seus produtos na Lavrinha, que hoje se chama São Pedro, era o lugar que tinha uma serraria braçal para retirar tábua para construir piso de casas, portas e janelas. Assim, Bernardo conseguiu ter uma fazenda de boi. Começou com doze vacas leiteiras. Quando fazia um mutirão, tinha 150 pessoas para ajudá-lo (Jovita).

Bernardo Furquim trabalhava no serviço de roça, fábrica. Ele tinha fábrica de pilar café, arroz, fábrica de fazer pinga, criou boi (...), ele construiu fábrica de socar arroz onde nós estávamos fazendo um tanque. Naquele tempo ele não tinha carro para carregar o barro para fazer a barragem, então, ele pegava aquele couro de boi seco, punha no chão, enchia de terra com pedra e conseguiu fazer a barragem70. (morador de São Pedro; depoimento em Stucchi, 1998: 51).

Filhos e netos de Bernardo estiveram contribuindo para o adensamento populacional das comunidades existentes ou para a formação de novas. O casamento entre primos paralelos e cruzados e tios e sobrinhas71 foi fator de povoamento e de repovoamento de áreas pouco habitadas ou habitadas por um mesmo tronco familiar72. No Galvão, os relatos de moradores mostram que, primeiramente, os irmãos Antônio e Benedito Machado ficaram morando no lugar onde hoje está o núcleo do bairro, e tomando conta da fábrica de carvão montada por Bernardo. Mais tarde, quem herdou o local foi um filho de Bernardo com Maria Rodrigues, procedente da Barra dos Pilões, chamado Graciano, que casou-se com Rita Machado, outra filha de Bernardo com Rosa Machado. Existe também o relato de um outro casamento realizado entre filhos de Bernardo com mulheres diferentes: Benedito e Arcângela, que tinham posses no sítio Chamado Capitão Mór, na margem direita do Pilões. Desse modo, vemos que, além de casamentos entre primos paralelos ou cruzados e entre tios (classificatórios) e sobrinhas, houve também casamentos entre irmãos, filhos de Bernardo com mulheres diferentes.

51 Stucchi, 1998: 54.

52 Os textos manuscritos de Jovita Furquim de França transcritos neste trabalho foram coletados durante pesquisa de campo realizada entre os meses de agosto e outubro de

53 Cesto para pesca, muito oblongo, afunilado, feito de varas finas e flexíveis (do

Dicionário Aurélio, 1986).

54 Referência ao rio Bocó, que nasce nas proximidades do local denominado Vargem, numa área próxima à barra do rio São Pedro, e deságua no rio Ivaporunduva na altura do bairro com o mesmo nome.

55 Rama é um nome local que as populações do Vale dão para mandioca, conforme

pude verificar também entre populações caiçaras dessa mesma região.

56 Stucchi, 1998: 57.

57 Deborah Stucchi informa que moradores do São Pedro fazem esse mesmo comentário a respeito da procedência de Bernardo.

58 Idem:58.

59 Mirales, 1998.

60 Vide definição de trocas simbólicas presente na nota no 41.

61 Lévi-Strauss, 1982: 100 e 102.

62 Lévi-Strauss, 1982: 83 e 85.

63 Stucchi, 1998: 52.

64 Vimos que Jovita menciona Maria Dias como uma das mulheres de Bernardo. É possível que ela tenha sido irmã de João Dias.

65 Livro de Terras da Paróquia de Xirirca apud Stucchi, 1998: 56.

66 Stucchi, 1998: 57.

67 Zan, l986:2 e

68 Com o objetivo de eliminar o trajeto feito no lombo de mulas, ainda no final do século

XIX foi construído o Valo Grande, um canal ligando o rio Ribeira ao Mar Pequeno. Esse

canal, a princípio, tinha apenas quatro metros de largura. Contudo acabou sendo

incrivelmente alargado pela força e volume das águas do rio, que terminou por assorear

as barras de Icapara e do Ribeira e o próprio porto de Iguape, impedindo a passagem de

barcos maiores. A partir desse fato, o porto de Iguape entrou em franco declínio.

69 Stucchi nos explica que os estabelecimentos que funcionavam como entreposto comercial situados à margem do Ribeira, fornecendo produtos como querosene, tecidos e sal, e comprando gêneros cultivados pelos moradores das comunidades para comercialização em Eldorado, Iporanga ou Iguape, eram denominados xibocas.

Fonte: RTC ITESP outubro de 2000.

 



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